quinta-feira, 30 de setembro de 2010

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

sábado, 9 de janeiro de 2010

A Mancha Negra em Avatar

A inclusão de um controverso e de mau gosto merchandising de cigarros no filme Avatar - com a fumaça das fartas baforadas de Sigourney Weaver invadindo a sala do cinema em magnífico efeito 3D - é tão lamentável quanto injustificável. Certamente, o diretor James Cameron deve ter sido seduzido por uma generosa contribuição da indústria do tabaco para o financiamento da produção, a ponto decorrer o risco de cometer esse verdadeiro suicídio profissional em um trabalho que tem a pretenção de entrar para história do cinema como uma produção revolucionária (que certamente o é, em muitos aspectos) e que prentende dar uma (infelizmente mal alinhavada) lição de moral na humanidade. Além do roteiro meio fraquinho - que não passa de um mal disfarçado remaking de Pocahontas - o espectador se depara com esse deslocado proselitismo do tabagismo. Um filme que pretende transmitir uma mensagem de proteção da vida integral em oposição ao descaso com a ecologia, supõe que, daqui a 150 anos, a humanidade ainda não terá superado a aberração do hábito de fumar, com o agravante de que o avatar de fumante no filme é uma bióloga que luta - suprema contradição - contra a destruição da natureza. Além dos extensamente conhecidos malefícios do tabagismo para a saúde dos fumantes ativos e passivos, as plantações de tabaco tem um efeito devastador sobre a ecologia, causando não apenas desflorestamento, esgotamento e desertificação do solo (que normalmente se segue à exploração de grandes extensões de terra para plantação de tabaco) como pelo farto uso de agrotóxicos, altamente letais, que causam dano a inúmeras espécies animais e vejetais, inclusive o ser humano. Ou seja, um efeito tão devastador quanto os buldozers dos vilões do filme sobre as florestas de Pandora. Se o filme quis transmitir uma mensagem de otimismo para o futuro, Cameron correu o desnecessário risco de por tudo a perder com esse lamentável equívoco. Para completar, Cameron já tinha uma série de respostas pré-fabricadas (e completamente esfarrapadas) para explicar as questões que inevitavelmente surgiriam sobre esse infeliz detalhe do filme, e que já foram levantadas pela imprensa norte-americana, inclusive pelo The New York Times, entre tantos outros veículos de comunicação e sites da Internet. Basta um breve pesquisa no Google para confirmar. Apenas para citar um exemplo, os site www.scenesmoking.org, que acompanha e classifica as aparições e referências ao tabaco nas produções cinematográficas, atribui a Avatar uma classificação imprópria, simbolizada por um ícone animado exalando fumaça: o "pulmão preto" (black lung).As explicações de Cameron absolutamente não convencem qualquer pessoa com um mínimo de informação e bom senso. Por exemplo, diz Cameron que "Se é permitido ver pessoas mentindo, roubando e matando em filmes com a mesma classificação etária, não acho que deveríamos esconder o cigarro". Sim, um mal justifica outro e, no caso do merchandising de tabaco, o fim justifica os meios, raciocínio perfeito, irretocavelmente alinhado com a filosofia dos vilões do filme ao explorar as jazidas de mineral precioso de Pandora, francamente Mister Cameron... Um dos mais engenhosos argumentos de Cameron é o de que "a personagem de Sigourney Weaver fuma como forma de criticar àqueles que desprezam a vida real e prestam mais atenção a seus avatares, na internet ou nos vídeos games". Afora ser um belo exercício de retórica e malabarismo verbal esse argumento é absolutamente falacioso, quase surrealista. Haveriam formas bem mais criativas de apresentar esse suposto alerta subliminar. O personagem fumante, por exemplo, ficaria bem mais apropriado para o vilão da história, o Coronel Miles Quaritch, um agente de morte muito mais identificado como o que o cigarro representa para a sociedade do que a personagem de Sigorney, uma cientista cujo papel seria o de ajudar a humanidade a preservar seus mais elevados valores, em especial a própria vida e a saúde. Em resumo, não há argumento capaz de defender ou explicar a presença de uma bióloga e ambientalista fumando no ambiente fechado de um sofisticado laboratório, localizado em uma tecnologicamente avançada estação extraterrestre, equipada com ar condicionado contra a atmosfera tóxica de um mundo estranho, onde o oxigênio certamente era um recurso precioso. Isso significaria no mínimo uma regressão na história, uma vez que já nos dias de hoje o fumo em ambientes fechados é praticamente proibido em quase todo o mundo desenvolvido. Esperar que o público poderia engolir suas irrisórias explicações é algo quase ingênuo, além disso, constitui uma insólita subestimação da inteligência dos analistas de cinema, da imprensa, dos intelectuais e das pessoas em geral. Como apropriadamente declarou Stanton Glantz, Diretor do The Center for Tobacco Control Research and Education, isso é como colocar "um punhado de plutônio em um reservatório de água". Cameron declarou também que "jamais teve a intenção de fazer de Grace Augustine", a personagem de Sigourney Weaver, "um modelo ou exemplo" para os adolescentes". "Ela é rude, fala palavrões, fuma", escreveu Cameron. Só faltou ele dizer que ela também é "burra e ignorante", um perfil bem apropriado para uma cientista de alto nível encarregada de conduzir um projeto de altíssima importância e responsabilidade. Para completar seus hercúleos esforços no afã de justificar o inexplicável (parece que ele realmente é afeito a grandes desafios) Cameron afirma que "não acredito na ideia dogmática de que ninguém deveria fumar em um filme", mas acredita na idéia dogmática de que colocar num filme um personagem fumante totalmente fora de contexto e sem propósito (a não ser do ponto de vista do financiamento do filme) não tem mal nenhum. Conclui dizendo que "Os filmes devem refletir a realidade", de fato, é de se supor que uma bióloga fumante no século XXII (o filme se passa no ano de 2.154) é algo extremamente realista. Diz ainda, que "Se é aceitável que as pessoas roubem, traiam, mintam e matem em filmes com essa censura, por que então tentar impor uma moralidade inconsistente apenas quanto ao fumo?", nesse argumento ele realmente se superou, realmente, não há absolutamente nenhuma inconsistência em alguém lutar para preservar a natureza enquanto cultiva calmamente um câncer de pulmão. Como que para se redimir, em que pesem todas as explicações mirabolantes, Cameron conclui suas declarações sobre o assunto dizendo que "o fumo é um hábito sujo que não apoio, e tampouco, creio, Avatar o faça". Aconselho-o a ver o filme de novo com mais atenção, Mister Cameron. Apesar de tudo isso o filme é de um valor indiscutível, além de ser uma experiência sensorial quase inigualável, uma produção de dimensões colossais e de uma criatividade quase inacreditáveis, o filme consegue apontar para um fato fundamental: Ou a humanidade dá um grande passo evolutivo em termos de consciência para realizar as grandes mudanças necessárias para preservar a vida no Planeta ou continuará em seu rumo atual de autodestruição, inclusive ao continuar a consumir cigarros de tabaco e outros venenos. Uma coisa é certa, o filme ficaria bem melhor sem essa mancha, a qual seria perfeitamente dispensável sem nenhum prejuízo ao roteiro, muito pelo contrário. Seja como for, a humanidade avança aprendendo com seus erros e James Cameron, como grande diretor que é, certamente levará isso em conta em suas próximas produções.

Fontes:

About.com - Avatar is Smoking...
Celebrity health & fitness
New York Times 1
New York Times 2
Ranking de Avatar no SceneSmoking.org
At Least Her Avatar Doesn't Smoke
Avatar: In space no-one can see you smoke
Cameron: Smoking in Avatar a Critique of Gamers
Can Hollywood quit smoking?
Blog do Stevens Rehen: AVATAR, cadeira de rodas e tabaco
Há quem acredite que seja esse o cigarro usado no filme
Último Segundo: James Cameron defende uso de cigarro em "Avatar"
Terra Cinema: 'Avatar' é mais um filme de sucesso reprovado em teste antifumo

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Vida, Saber e Ignorância

É urgente admitirmos nossa estupefação diante do fenômeno da vida. Sabemos muito e temos condições de aprender cada vez mais sobre como funciona a vida, mas muito pouco sobre como ela surge. A origem e a razão de ser da vida e do Universo permanece sendo um mistério sobre o qual podemos apenas especular. Estamos diante do desafio de decidir quando a vida começa para um dado indivíduo e se nos é lícito fazer experiências com células embrionárias. A grande objeção é de cunho religioso. Os religiosos crêem que a vida é criação de um Deus e não têm dúvida em afirmar que a vida se inicia na concepção. Ora, essa certeza se baseia naquilo que não sabemos. Para o que ainda não sabemos criamos hipóteses e pressupostos. Nossa ignorância sobre a origem da vida e do Universo nos levou à criação da idéia de Deus, um ser superior que teria criado tudo o que existe. No entanto, como diria Sócrates, a verdade é que tudo o que sabemos de fato sobre isso é que não sabemos. Nossa ignorância vai mais além, nem mesmo sabemos se existe vida fora da Terra. A única coisa que sabemos com certeza é que existe vida na Terra e que, nas atuais circunstâncias, somos os grandes responsáveis pela sua manutenção, ou seja, depende de nós seres humanos – misteriosas entidades de carbono sensíveis e inteligentes – a manutenção ou o fim da vida na Terra e, até onde nos é dado saber, no Universo! Então, a grande questão que deve ser colocada não é saber quando a vida começa, mas sim decidir o que é melhor no sentido da sua preservação naquilo que depende de nós. Entre outras ameaças, a vida na Terra pode acabar por um cataclismo, por uma guerra nuclear ou por uma epidemia incontrolável. No que nos diz respeito, a vida depende de nossos saberes, a ciência é nosso grande recurso. Quanto mais soubermos sobre a vida, mais seremos capazes de preservá-la. A pesquisa com células tronco representa um avanço fundamental do nosso saber científico sobre a vida. O pensamento religioso já atrasou muitos outros desenvolvimentos em função de seus pressupostos fundados na ignorância. Não podemos nos dar o luxo de repetir erros históricos dessa magnitude. Um eventual pedido de desculpas de um Papa daqui a 200 ou 300 anos – se ainda houver vida – não será capaz de reverter esse atraso, potencialmente fatal. A vida deve ser preservada independentemente de nossas crenças, mas em função de nossos saberes. Mesmo que a vida tenha sido criada por um Deus, a inteligência humana faz parte dessa criação e, portanto, temos o dever de usar esse dom para preservar a obra da criação fazendo tudo o que está ao nosso alcance. Certamente nosso suposto Criador não irá nos condenar por isso, mas nós podemos estar condenando a vida por atraso, ignorância ou omissão.